Uma profissão que vem de longe 

Por que prático?

No início do século XIX, oficialmente, a palavra prático ainda não era nome de profissão para a monarquia portuguesa. A constatação vem da leitura do primeiro decreto que regulamentou a praticagem no Brasil, baixado pelo príncipe regente D. João, em 1808, poucos meses depois de a corte portuguesa se estabelecer no Riode Janeiro. No diploma legal, o monarca se referia a esse profissional como piloto prático, a mesma nomenclatura adotada em Portugal para designar aqueles que, sem conhecimento naútico teórico, mas com muita prática nas operações de entrada e saída dos portos, auxiliavam os comandantes dos navios. Nas normas seguintes, da época imperial, o vócabulo piloto foi eliminado; os legisladores passaram a se referir aos profissionais da área simplesmente como práticos. Ou seja, transformaram o adjetivo prático em substantivo, excluindo onome piloto. O termo que qualificava o profissional passou a designar o próprio profissional. Devido a esse fenômeno lingüístico, não há muito sentido em investigar a etimologia da palavra prático, e sim do termo piloto.Aquele que dirige uma embarcação” é a acepção mais conhecida de piloto. E de onde vem essa palavra? Do latim pedotes, de pédon, timão do barco, leme. Continuando a derivação chega-se à forma grega pous, podòs, pé, pela posição dosdirigentes dos barcos: sempre de pé junto ao leme.
O estudo etimológico mais interessante é o da palavra lotse, que significa prático em alemão. A investigação desse termo leva à vinculação primitiva e essencial do prático com o prumo de mão. O vocábulo alemão lot quer dizer pedaço de chumbo, de onde deriva o verbo loten sondar a profundidade da água lançando uma chumbada. É possível, portanto, que lotse se origine de loten. A maioria dos estudiosos alemães, entretanto, não aceita essa hipótese. Segundo eles, lotse tem sua origem no termo leytsman, do alemão antigo, que corresponderia lodsman, em holandês, e loadsman, em inglês. Os radicais leytlod load significariam to lead (dirigir) ou way (caminho). O prático seria aquele que guia ou mostra o caminho – a definição mais lúdica, sem dúvida. Da mesma forma, a Estrela Polar era conhecida como the Lodestar, a estrela-guia.
O termo genérico que designava prático no início da Idade Média era lodesman. Algumas de suas variações – lodslotse loods – ainda estão em uso na Escandinávia, Alemanha e Holanda, respectivamente. No Brasil, ficou-se com BUENO, Francisco da Silveira.  Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa.  MARTINS, Joaquim António. História da Pilotagem Prática em Portugal,p. 13. 15. O livro “De 1808 a 2008: 200 anos de praticagem regulamentada no Brasil” a palavra prático; na Espanha e na América Latina prevaleceu práctico; em Portugal, piloto; nos países de língua inglesa, pilot; na França, pilote e na Itália, pilota.

A origem da praticagem


Não é possível precisar no tempo quando um navegante foi assessorado pela primeira vez por um indivíduo com conhecimentos locais que lhe permitiram
levar a bom termo a operação de atracação de um navio. Como pesquisar, então, os primórdios da atividade de praticagem no mundo? O maritimista brasileiro Sampaio de Lacerda oferece boas fontes de inspiração. Diz ele que “a apresentação do ambiente geográfico indica ao homem o gênero de vida que lhe está reservado”. Segundo Lacerda, essa concepção é aplicável quando se procura explicar a razão do desenvolvimento da navegação e do comércio marítimo: Assim, ao povo fenício couberam tais empreendimentos tão somente por habitar região estreita de terra, apertada entre as montanhas do Líbano e as plagas do Mediterrâneo. Mais tarde, todos os povos situados à beira-mar, seguindo o exemplo dos fenícios, passaram, pouco a pouco, a se dedicar também àquelas atividades.
Com a intensificação crescente da navegação e do comércio pelo mar, surgiu a necessidade de serem criadas e adotadas normas especiais destinadas à sua
regulamentação. O conjunto dessas regras constituiu, então, o que se chamou de direito marítimo. Embora o estudo do direito marítimo antigo ofereça pistas sobre a origem da praticagem no mundo, não permite reconstituir o início da profissão, que será sempre um grande enigma. Não há documentos que provem a existência de leis marítimas para o povo fenício, por exemplo: “(…) Apesar da grande atividade no tráfego marítimo, pouco ou quase nenhum registro foi encontrado dos antigos povos orientais, e nem mesmo dos fenícios, que fizeram de Tiro e Cartagena dois grandes pólos comerciais”. Entretanto, por serem grandes navegadores os precursores do comércio marítimo, é comum encontrar afirmações de que essa civilização fazia uso do serviço. Um dos mais antigos registros de um “piloto de barco” encontra-se no Código de Hammurabi, o mais extenso e conhecido corpo legal do Oriente Antigo, uma das primeiras regras escritas a respeito da navegação marítima. A autoria das leis é atribuída ao rei Hammurabi, fundador da primeira dinastia da Babilônia, que reinou entre os anos 1792-1750 a.C. Esse conjunto de leis contém regras sobre construção naval, fretamento de navios a vela e a remo, responsabilidade do fretador, abalroação e indenização devida por quem causar o dano. A civilização babilônica desenvolveu-se nas bacias dos rios Tigre e Eufrates, e as mercadorias eram freqüentemente transportadas via navegação fluvial. A navegação era tão importante, que entre as classes profissionais escolhidas pelo legislador para regular direitos e obrigações estava a dos “barqueiros”. As outras eram as dos médicos, veterinários, barbeiros e pedreiros.